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Sobre margaridas e anjos rotos

Hoje revisitei meu jardim. Há dias não o fazia. Vasculhei tudo a cata de flores. É inverno, e única margarida apresentou-se. Amarelecida, pétalas crestadas pelo frio, embora jovem tinha há muito perdido seu ar de pureza e aspecto angelical, e portanto não mais servia para ornar minha mesa. Decidi arrancá-la. Gesto brusco, arranquei a planta com as raízes e coloquei os despojos sobre uma folha de jornal. Da estampa, um par de olhos assustados arregalavam-se num corpo miúdo. Restos de um anjo, perdido de seu tempo de brincar que sob o rigor da estação, guardava-se sob cobertores de papelão no vão de uma escadaria qualquer.
Dolorosa a picada do gelo. Adentrando pelos poros, infiltrando-se nas veias de pequeninos pés, subindo célere por entre perninhas escabiosas até o ventre opado, onde oxiúros, tênias e ascarídeas nunca dormem. Nunca sossegam. Insidiosa a ação da cola, alargando as narinas, e pairando sobre o esfíncter estomacal já estreitado pela ausência de pão. Vida estreita pela falta de mãe, pai e mãos protetoras.
Errei. Não devia ter extirpado a margarida pela raiz. Devia ter pinçado as ervas daninhas, e adubado o solo. Certamente o jardim voltaria a reflorir na primavera, instaurando mais vigor nos brotos jovens, e nas flores ainda em gestação.
Atentarei da vida ao recomeço. Revolverei o solo. Ainda tenho à mão a mais forte das armas: A pá do sufrágio.
J/R 06/2004
Escrito por Jeanete Ruaro às 23h37
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VAZIO
Do que antes era
cabelo solto, livre ao vento
amor pandorga, voando alto
murmúrios e carícias
de consentimento,
Resta agora
no vazio de nós dois
a destemperança...
o coração no brete
E o lenço salgado,
Fica guardado
numa caixinha sem tampa.
J/R
Escrito por Jeanete Ruaro às 23h54
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Atiro-me dos teus olhos blue(s)
e caio sobre teus lábios.
Minha boca jaz(z) na tua
R/S
Escrito por Jeanete Ruaro às 09h30
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Derramo meus versos desbotados
em teus olhos verdes
Contagiadas, as palavras reverdejam

Escrito por Jeanete Ruaro às 23h57
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Perdendo-te,
Esqueci de mim
Não sei mais quem sou
Preciso reencontrar-te
Assim me reconheço
Sou teu avesso
J/R
Escrito por Jeanete Ruaro às 10h05
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INVERNIA
A chuva se mantém cerrada
Teus passos, apelos à distância
já não vestem mais esta calçada
Há apenas a dissonância trôpega
do cansaço do arrasto dos meus pés.
O próprio sol, que
despertava ao amanhecer
Esquece-se do dia, e revela a noite
E minha boca, que aguardava
lânguida e rubra
mais beijos do que podias conceder,
apaga o róseo: o tom da alegria
e reveste toda minha tez
com a desértica cor da invernia.
J/R 06/2004
Escrito por Jeanete Ruaro às 15h15
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Pulso múrio

Pulso múrio
A manhã transpira cinzenta
pulso múrio
de um sol acamado
Acabado, expia
em chuva.
Escrito por Jeanete Ruaro às 10h03
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Deixa que apenas por um instante
teus olhos como turistas ansiosos,
percorram cada recôndito do meu ser
Viaja, e quando retornares desta viagem,
encontrarás na tua bagagem
sob a prata dos teus cabelos
a história da minha vida.
Conhecendo-a, te conhecerás por inteiro,
pois sou tua outra metade.
J/R 16/04/2004
Escrito por Jeanete Ruaro às 23h44
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Dádiva
Dádiva, é a noite se que derrama,
e estreita entre nós
os espaços nus.
Dádiva é o luar,
que penetra na alfombra
e veste com listras breves de prata
o cume do desejo,
por nós escalado.
Dádiva é o suor,
que exala do teu corpo extenuado,
e se debruça sobre meus olhos,
com a doce poesia
das rimas
de um amor consumado.
J/R 24/05/2004
Escrito por Jeanete Ruaro às 23h09
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Sem rodeio
Veio o dia
Você veio
Riso largo
Sem rodeio
Vôo leve
Pouso breve
Abre as asas
(sem receio
pousa em mim.
Sou tua sempre,
amor sem freio)
Sou teu ninho
Toma-me assim
Te aquece aqui
Roça meu seio
E nesse enleio
Adentra-me, enfim
J/R 12/06/04
Escrito por Jeanete Ruaro às 22h30
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Queridos amigos: perdoem-me a não visita aos preciosos cantinhos de vocês e a não postagem de poemas hoje e ...não sei quando volto.
Abraços a todos
Escrito por Jeanete Ruaro às 09h58
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Um poetrix e um breve poema sobre um tema forte. NAVALHA

I
No instante da navalha
Brota a rubra flor:
Secção.
II
Sobre a pele alva de Clara
baila a sedosa navalha
(ballet, sapatilha sobre fio)
A veia silente escancara
uma rosa escarlate
O fim a presa abate
e coagula o cio
J/R 05/06/2004
Escrito por Jeanete Ruaro às 15h43
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Sorri...
Tua boca tão próxima!
Olor doce,
anis, madressilvas e mel
Tua pele tão quente
roçando
(entre)
meu ventre.
Sonhei...
Desperta,
notei
O alforje que te guardava,
peito aberto,
a alma e o coração exposto
genuflexão aos pés do leito,
sumiu.
Teu corpo procurou outros ares
Verguei-me aos pesares
Ante tua ausência
Chorei.
J/R 06/2004
Escrito por Jeanete Ruaro às 14h26
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Croqui
Invasiva,
percorro com dedos trêmulos
as marcas de teu antigo exsudar,
e busco o contorno exato da tua face,
na rosa presa
na colcha de seda
sobre o leito, no espaldar.
O tempo é disfarce, e disfarça o croqui de exsudadas faces.
Uma gola de pele acaricia suavemente
um teu vestido, que tanto te aprazia usar.
Um batalhão de traças se aproxima ímpio.
Dedetizo-as.
Olhos já cegos, naftalino-as.
Apago-lhes o olfato.
Demorarão a recomeçar a jornada.
Darão tempo a lembrança da exúvia.
Saudosa, persigo resquícios do teu cheiro
escondido atrás da porta. Encontro-o.
Temerosa por fuga, tranco-a. Inspiro-o. Inflo...
No porta-retratos, teu sorriso franco e afável,
me incita...
Preencho a colcheia vazia da última nota
da tua cantiga, que tempo apagou
quando calou tua voz,
e cantarolo a canção de ninar.
J/R 31/01/04
Escrito por Jeanete Ruaro às 23h47
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SOL CONFIDENTE
Procuro um sol displicente
Que olhe do alto
E se derrame contente
Sobre minha cabeça
Que doure meus cachos,
Aqueça-me a nuca
Que ilumine meus lábios,
E derreta o carmim.
Um sol confidente
Que saiba de tudo
Que há entre nós.
Que ria comigo,
Que se deleite
Mas que apenas espreite,
E não nos delate
Ao espiar-nos no ato,
Quando estamos a sós.
J/R 12/01/2004
Escrito por Jeanete Ruaro às 10h46
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