Tua música, Deus em alinho,
No cântico sacro da sexta badalada
Que determina o entardecer
Era o convite a bandeja.
Sempre lauta, que servias
De sobejo, antes da canção de ninar.
As noites no inverno eram longas.
Como longas mangas de lilases,
Onde o vento na passada
Lambia bem de breve os sabiás.
Insuflados aos cuidados do ninho,
Eles guardavam o prévio da nova cantiga.
A coruja ocupava o fio, e o pio
Era orquestrado pelos grilos.
A vela arribava a saia, e pela
Caravela de sopros,
A sombra das cortinas eram fantasmas
Emparedados, com vestimentas de monges.
Ria do que rias. Ria, (sem entender) quando lias
Na língua que não era a nossa.
E no excesso de consoantes,
Os sapos eram loas, e os reis coaxavam.
Teu bairro conhecia-te pelo sotaque
Teu bairro conhecia tuas raízes.
Qual cisco teria rompido a barreira
Dos teus cílios, tropeçado
No cadarço de estrelas de tuas íris,
E incitado o derramar de tua lágrima final?
Eu nunca soube qual!
No entanto, a partilha foi fácil.
Herdei a unicidade da tua ninhada,
A multiplicidade antecipada de tuas rugas,
E a unção do que repete a lembrança:
A voz do vinho, que jamais se esquece de onde veio.
J/R 27/02/04
Escrito por Jeanete Ruaro às 23h21
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