Mar da Poesia


 

Insensatez de um dia de chuva.

                            

Um renque/

de sombrinhas molhadas/

fingindo colorir o dia.

           *

Insólito colóquio

 

Em bisonhos mares

De cabelos em caracóis

Pétalas multicores,

Cavalos árabes&luto fechado

Cochicham segredos medonhos

            *

Gota certeira

 

Uma gota deflora a umbrela

Puro atrevimento;

É certeiro o gozo dela

Na cabeça: bem no centro

Escrito por Jeanete Ruaro às 15h43
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Teimosia

Meu crime

Foi proposital:

Abati

As letras das margens

E antes que rosnassem em mim

Palavras de saturação,

Esvaziei o poema no grito

 

Entre o riso e o choro,

As letras caídas

Brincam teimosia

:Renque de sílabas

Teimosamente querendo voltar

 

 



Escrito por Jeanete Ruaro às 09h33
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Recomeço à antiga

 

Recomeça:

Veste black-tie

Espoca o champagne

Serve duas taças.

Joga

A rosa da lapela a meus pés

Faz mesura na contradança.

Sobranceia

Meus seios com teu ígneo torso

Cora

Com tua lábia melíflua, a minha tez

(Inflecte o corpo

Em pré-posição de nado)

E mergulha

No meu coração

Mais uma vez.



Escrito por Jeanete Ruaro às 16h26
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Depois de alguns dias sem postar por motivos técnicos no meu blog, estou voltando. Agradeço a todos os amigos pela presença e chamamento. Vocês fazem com que eu me emocione  cada vez que leio os comentários. Beijos grandões a todos. Lobita, amo você!

 

MARIA

 

O mínimo soluça sobre a mesa dos pobres

Tilintam as taças de vinho,

sobre as mesas dos nobres.

                *

Políticos esgoelam a voz,

arranham a garganta 

bochecham menta.

                *

É um senta, levanta, fala,  come.

Falam, levantam, correm, voam!

Alborcam-se cargos

(Oferta-se ilusão.)

                 *

Maria procura o condimento

Condimento pra quê? se na panela vazia

não há nada pra cozer.

                 *

Procura na prateleira

Que besteira! Se de fio a pavio,

tudo está vazio.

                  *

Os filhos choram e gritam seu nome.

As barriguinhas roncam e avisam:

Ilusão não se come!

                  *

O homem dela, há pouco

foi embora com outra .Ele acha que fez jus

A inanição leva os filhos de Maria ao SUS.

                   *

Maria pede clemência:

Só desta vez Senhor, olhai por nós

E salva a pequena Inocência



Escrito por Jeanete Ruaro às 09h40
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Apenas uma flor branca 

Agregada a uma cruz

É jogada sobre o pequenino caixão

                   *

Um consolo, uma frase,

Uma metalepse:

Ao céu o Senhor guiará, a pranteadinha pela mão!

                    *

A esperança volta, e se faz outra vez presente

Na vida tão sofrida desta fatia do povo

Há um grito de dor de pré-eclosão, saindo das entranhas

                     * 

Rasgando o ventre rotundo, ainda diante das carpideiras

Vem aí senhores, mais uma boca pro mundo

Maria está parindo de novo

                     *

-Este sim, eu crio rijo e forte-

Jura Maria três vezes, diante da cruz

Terá o seu nome  Senhor. Atenderá por Jesus

 

02_09_2002 J/R

 

De lá para cá, pouca coisa mudou. O pequenino Jesus faleceu há dois anos. Não teve flor branca sobre o caixão, sequer uma cruz.

Há um pássaro de prata novinho voando sob este céu varonil! (Oh Pátria amada B...!)  

Maria desmanchou a prateleira. Com a lenha que fez  ainda coze ilusão, mas nunca mais jurou nada.



Escrito por Jeanete Ruaro às 09h19
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