Mar da Poesia


GAVETÃO 84

 

Sexta-feira, 18hs30ms. Tráfego intenso. Hora doRush na avenida. Os motores roncam sua fome voraz. Alguns motoristas tamborilam nas direções os minutos perdidos do happy-hour. Outros almejam o recesso do lar. Na calçada, um burburinho se forma em torno de um jovem muito magro, que está caído sobre a calçada e se contorce em espasmos. A dor lhe é inerente. Não há sinais de sangue ou atropelamento. Algumas mulheres param e gesticulam. Ninguém o toca. Outras vêm arrastadas por seus filhos. Por  pequeninos rostos onde a curiosidade e a inocência se mesclam com estranha fixação: Ver a morte de perto. Um condutor freia, observa, e parte. Os pés do moço, totalmente descontrolados e inquietos, batem, um no outro de maneira incessante. O peito arfa. Em instantes, o tórax eleva-se alguns centímetros do chão e torna a baixar. Movimentos rápidos, como se estivesse sendo submetido a eletrochoques. Aproxima-se uma mulher trajando preto. Livro nas mãos, sob o sinal da cruz, as palavras vêm do céu:

-Salvai-o Senhor, ele é nosso irmão!

 

Ninguém o toca. Os meninos que estão ao redor observam.  Impacientes, eles chutam as canelas uns dos outros. Dezenas de carros passam. Apenas um condutor para. Observa o moço. Não o toca. Munido de celular, desfila sobre a calçada. O telefone na mão lhe dá um ar superior naquele momento. Nota-se perfeitamente  na imponência de seus passos: “Com meu celular, eu resolvo o problema”.Ajuda solicitada, ele segue seu destino. O happy-hour o aguarda. A mulher o aguarda. Todos aguardam uns aos outros. O moço aguarda socorro. A gosma branca que se formara em sua boca, já não consegue aguardar e se liberta. Da janela do primeiro andar eu quero gritar que lhe segurem a língua para que não sufoque, mas, a voz do emprego me ordena em bom tom: -Afira novamente a temperatura. -Com cuidado eu toco o meu paciente. Ninguém ainda tocou o moço. Enluvada, retiro cuidadosamente do orifício sub caudal do pequeno e valioso cão da raça Lhasa Apso originário do Tibet, o termômetro.

 

 A febre cedeu. Dona Lucy, a proprietária  do animal cessa seu pranto convulso, e é acompanhada pelo meu empregador até a porta de saída, com palavras gentis:

- Não se preocupe, o socorro veio a tempo e evitamos  o progresso do infarto. Domingo ele estará em casa, são e salvo. Mas lembre-se: não dê muita comida. Ele está obeso! –diz o veterinário, embolsando a generosa quantia de  1.600,00 Reais pelo atendimento, e uma leve fagulha, –este fim de semana rendeu!- baila em seu olhar.

Cinqüenta e cinco exatos minutos se passaram e o socorro chega para o moço. A sirene da ambulância  grita pela avenida afora seu clamor de desculpas pela inépcia do retardo.

 

Domingo...

Royal Straight Flush! Jogada máxima! A mão fechada de dona Lucy ergue-se triunfal, e os amigos aplaudem.

O pequeno Lhasa já está curado! Ele corre lépido ao redor da piscina, e acaba de aceitar afinal, um osso chicle, embebido no sangue do suculento churrasco, que acontece em homenagem à sua recuperação. Todos riem.

No corredor do hospital, na maca improvisada, os pés do moço estão aquietados.A enfermeira apalpa-lhe a jugular, o desentuba, e grita por cima do ombro:

- Fagundes! Vai até a ‘geladeira’ vê se tem lugar pra mais um, e traz uma etiqueta com número de identificação.

Fagundes tem pressa. É domingo. Os filhos o aguardam. O futebol, os amigos, a cerveja e o riso o aguardam.

 As rodinhas da maca deslizam rápidas guiadas pelas mãos de Fagundes.  Nos pés do moço, roxos e definitivamente quietos, rodopia a ficha com o destino do aguardo: ‘Gavetão 84’ da Santa Casa de Caridade Nossa Senhora da Saúde. Não há nenhuma outra identificação, e ainda ninguém o procurou ou chorou qualquer lágrima por ele.O gelo, como um último blefe o aguarda.

 

J/R  2004

 

Bom fimde semana a todos



Escrito por Jeanete Ruaro às 09h14
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Hoje é Dia da avó. Como sempre sou avessa, eu parabenizo os netos de hoje. Parabenizo todos os netos que tem em seus avós um esteio, um porto seguro. Amorosa, ou, financeiramente. Na atual conjuntura, os avós de um modo geral, deixaram de ser doces lembranças após visitas domingueiras, para se transformar em verdadeiros muros de arrimo. Não são poucos os que, com seu soldo, salário e aposentadorias auxiliam na criação e alimentação dos netos. O salário abaixo dos níveis desejados aliados à  falta de emprego digno, que realmente se adeque as condições de se criar um filho, fazem os avós forçosamente ser coadjuvantes, senão, peça principal neste processo. É de se lamentar que políticos na atual vigência, façam cursos rápidos de quatro a cinco dias, para poder ter o dom da oratória e retórica perfeita ao encarar seus adversários ou correligionários numa tribuna de CPI, (apenas para aprender a mentir com convicção!) enquanto nossos jovens não podem cursar uma faculdade por falta de recursos financeiros. Que se roube menos, e se aplique mais em educação, ou nada, repito, NADA neste país, o fará crescer. A não ser como rabo de burro, que cresce para baixo! Onde não se investe na cultura, não há crescimento.

          

           *

Nas mãos da avó,

O chá dança

‘Tchá, tchá, tchá do cansaço’,

Fibrilando

Dentro da xícara

               *

 A avó guarda as asas

Dos pés

Dentro das pantufas.

              *

A avó desliza silente

Por entre o baú de recordações

O grito há muito amainou,

E a Valsa do adeus

É presença sempre-viva.

                 *

A avó guarda rostos

nos porta-retratos

e saudades nas molduras

                  *

Dentro da taça, em infusão

Maçã, canela e hibiscos.

O aroma exala, e a memória voa.

Será que o mundo correu demais?

Ou foi ela, que se aligeirou à toa?



Escrito por Jeanete Ruaro às 10h02
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Dia da maizade

 

Amizade

 

Pode ser colorida

Ser verde e amarela

Na verdade, não importa a cor dela

 

Ela não tem raça

Não sai à caça

De outra, por qualquer mazela

 

Ela não é doente

É sã e é semente

Cultive-a, regue-a. Não a deixe magrela

 

Por fora ela é linda

Por dentro é doce

Da fruta  melhor, uma cheia tigela

 

Pode ser minha

E pode ser sua

Desde que, a seu jeito cuidada,

Façamos de nosso peito

A sua morada



Escrito por Jeanete Ruaro às 09h21
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Escrito por Jeanete Ruaro às 09h04
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Forma e essência

 

Da palavra amor,

Amo toda forma

E essência

Assim como sou,

Aurora

Impregnada de cores

Pássaro,

Esculpindo ninho sob promessa

Amo-te como és

:Imanente véu diáfano

De tecer latências

 



Escrito por Jeanete Ruaro às 23h10
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