Mar da Poesia


Caça

 

Quando não houver mais brilho

Na luz do meu olhar,

Lembra bem:

Não é desgraça

 

É que o tempo quer ser rei,

E tornou-se ameaça

E se ontem o cacei,

Hoje sou a caça.

 

J/R

 

Auto-retrato

 

Nas mãos dela o cinzel sulcava fundo o metal. Esta não era apenas mais uma serigrafia. Era um auto-retrato. Os dedos nodosos já não tinham mais a agilidade de antes, porém ela tinha pressa. Ela sabia bem que tudo na vida tinha um tempo certo para acontecer. Tempo de esculpir colo de mãe, esculpir cirandas, esculpir animais ferozes, esculpir o rosto do amado e o tempo de esculpir as faces dos filhos...netos... O tempo de doer vendo o tempo passar. O tempo certo para retratar-se era este. Aos poucos iam aparecendo os fios de cabelo urdidos em trança, o queixo miúdo, e o esboço do sorriso que lhe era inerente. Enquanto executava a obra, deliciava-se, recitando baixinho uma de suas poesias. Compor poemas era um dos seus hobbys, embora por muitas vezes ela apenas as deixava cochilando dentro de uma gaveta do criado-mudo. As mãos sempre competentes começaram repentinamente a tremer mais que o habitual. Antes de perder todas as forças, ela quis dar um último retoque, rabiscando abaixo rosto concluído, SAUDAD...

O resto da palavra ela não conseguiu esculpir. Sua alma começava a pairar entre o céu e a terra envolta em uma aura de luz.

 

2005



Escrito por Jeanete Ruaro às 09h36
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Avança...

com tua mão impaciente

sobre meus cabelos

Alcança-os

Faz dos que enconchas, réstia

Trança-os

Amansa-os

Derrama-te sobre eles

em anelos

Depois exulta:

Ao estancarmos

à beira de um instante

no grito do crepúsculo

grávido de cores,

somos o mel, o suco e o sêmen

eternizados, na doce

arte de fazer amor.



Escrito por Jeanete Ruaro às 21h56
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O velho casarão da Rua Freitas

 

O velho casarão da rua Freitas não é mais o mesmo. A lanterna vermelha que ostentava a entrada e que indicava o exato lugar para diversão libidinosa de homens de todas as idades, faz tempo quebrou-se. Das pesadas cortinas de veludo vermelho, restam apenas trapos, que balançam  ao sabor do vento, rebolando-se como se ainda estivessem no ritmo de um charleston ou de um tango, e formam estranhas figuras na parede. As mãos crispadas e envelhecidas da outrora famosa cafetina Lilly, agora chamada por alguns vizinhos de Make-up pelo excesso de maquiagem que usa, alisam o pó dos móveis como se alisassem as jóias que já não tem mais. Pelo vidro quebrado da vidraça entra mais uma pedra arremessada por mãos que se crêem pudicas, e está envolta num pedaço de papel onde se lê em letras garrafais:  Puta...! A velha  Make-up, alheia a tudo, estica as canelas finas e arrasta as chinelas pelo assoalho roído pelos cupins, enrola os braços por sobre os seios despencados, e, enquanto pelo mal da incontinência lhe foge a urina, coloca um disco na vitrola, dança, como se com alguém fosse, e balbucia o nome do seu grande amor: Roger.  

 

Roger  era um ladrãozinho barato quando ela o conheceu. Bem mais jovem que ela, com seu ar sedutor, havia se aproximado justo na época em que os negócios iam de vento em popa, e as maiores orgias da casa eram patrocinadas por altas autoridades. A paixão cresceu rápida entre os dois. Roger exigiu exclusividade de Lilly, e ela, afeita ao ciúme quase doentio, não admitia traição. Eram paixão e carne, unha e pele. A casa faturava mais com bebida, nas noites dos jogos de strip. Make-up escolhia as meninas mais novas, e lhes destinava a tarefa de  fazer com que os clientes bebessem até ficarem de bolsos vazios e embriagados. A cada taça de bebida ingerida, uma jovem meretriz despia uma peça de roupa, enquanto no vestuário do freguês era colada uma estrelinha prateada. No final do jogo, quem tinha o maior número de estrelas, tinha a seu dispor uma novata, e é claro que pagava mais caro por isso. Era tarefa de Roger colar as estrelas e contar o dinheiro, do qual roubava sempre uma parte.  Em uma dessas noites, depois da brincadeira, ele sumiu levando consigo o dinheiro, as jóias  e Heloisa, uma das garotas mais faceiras da casa.

 

Os pés da velha cafetina estancam de súbito. Ante a porta entreaberta um homem bastante grisalho a chama pelo antigo nome de guerra:-Lilly.

 

Caninos ausentes, a velha riu. Rio o riso do aguardo sanado, riu o riso dos insanos e o riso da vingança, quando Roger adentrou a sala. Súbito esqueceu a limitação dos passos. Trancou a porta, dirigiu-se à cozinha e abriu o gás. Seguiu ao quarto onde apanhou um dos presentes que Roger tinha lhe dado: A velha garrucha em cuja boca ela mesma tinha enfiado a última bala. De volta a sala, viu Roger na mesma posição e na vitrola a voz do cantor assombrava o ambiente mofento em alto e bom tom:- Já no estás más a mi lado corazón...

 

Make-up sabia que era boa de mira. Uma bala. Um tiro bastaria, e terminava aquele tormento. Aquela saudade, que proliferava como um fungo há anos, procriando e procriando como ratos, deteriorando-lhe o corpo e a mente.

Aquela saudade que lhe dizia sempre -tempo bom aquele de outrora. -Vida de merda, essa de agora.

Dedo no gatilho. Mira bem no meio dos olhos. Estampido à queima roupa. Bala cravada na testa. E o corpo de Roger tomba sangrando.  Tudo começa a girar ao redor de Lilly. Diante do corpo tombado ela não sabe mais o que é passado ou presente. O cantor esmera-se:

-Siempre fuiste la razón de mi existir...

 A bruma da insanidade avança, e o sangue quente da ferida atiça a libido da velha Make-up.

Lentamente despe-se diante do moribundo, como se no antigo jogo de srip tivesse. Nua, ajoelha-se e pende o corpo sobre ele.

 

Continua abaixo



Escrito por Jeanete Ruaro às 23h02
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Ah! Quanto vinha desejando  sentir a boca de Roger sugando-a, como fazia nos velhos tempos.Enquanto crava as unhas compridas e sujas da mão esquerda dentro da ferida, com a direita ela move o queixo do antigo amante apertando-lhe a boca em torno do seio. O sangue se espalha rápido pelo chão. Os olhos da velha têm um brilho de pré-morte.

-“Suga” “Suga” O corpo inerte de Roger não responde ao estimulo.O braço automático da vitrola desce outra vez sobre o disco. A voz do cantor preenche todos os cantos da sala:

-Siempre fuiste la razón de mi existir...Make-up ergue o corpo magro. Ossos das ancas furando a pele. Pele do ventre grudando nos rins. Apanha a calcinha, ergue-a, e a faz girar sobre a ponta do indicador direito. O espelho...Lilly tinha fascínio por espelhos. Ela enrola a mão com a calcinha, esmurra o espelho, quebra-o e junta alguns cacos.

-Adorar-te para mi fué religión.  Pernas abertas, ajoelha-se sobre Roger. Um jato de urina, misto de frenesi e saudade, foge, e banha o corpo dele.Trêmula, ela separa os cacos, e reserva o maior. Passa os menores no sangue coagulado, e cola, um a um, sobre os olhos opacentos e arregalados de Roger. Estranho...Ela podia jurar que ele havia piscado quando ela colou o primeiro caco.

Ela ri. Caninos ausentes. Ela grita: “Levante! Olhos de luz!” -Que me dió luz a mi vida... Recolhe o caco maior e o passa com força sobre o pulso esquerdo seccionando a veia.

Deita-se sobre o corpo, e vê refletido nos cacos de vidro o mapa de suas rugas e de sua solidão. O sangue dos dois se mistura, e a voz do cantor acompanha cada gota: -Y si yo no puedo ver-te. Porque Diós me hizo quererte...Para hacerme sufrir más?

O cheiro do gás se torna insuportável e Lilly começa a enfraquecer. Reúne as forças que lhe restam e apanha do bolso do vestido que tirara, a desbotada caixa de fósforos Fiat Lux e risca o último palito.

 

Passada a explosão, do outro lado da rua, um naquinho de carne, pele, e ralos pelos pubianos, está na mira da língua faminta de um cão vagabundo e sem dono.

 

JR  2003/2004



Escrito por Jeanete Ruaro às 23h00
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Busquei o riso largo

que brinca em teu rosto

quando estás feliz

Busquei  tua voz, que sempre

antecede tua presença

Nada encontrei.

Ainda estavas ausente

Fiquei no aguardo

Recôndita entre

a dança das cortinas,

e sentindo sobre as coxas

o incômodo farfalhar

do teu pijama de cetim

Que vesti, para pensar-te meu.

 

J/R  2004-09-22



Escrito por Jeanete Ruaro às 09h02
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Escrito por Jeanete Ruaro às 13h14
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Sem flor

     

Dor é o menino da rua

não o espinho

da rosa na pele

Dor é a menina

só osso e pele

que na esquina das rosas

te impele

a pedir pelo sinal

verde

antes que aquele olhar

vermelho

da cor do sinal

te peça

uma esmola

uma escola

e sem escolha morra

sem flor

uma rosa sequer

 

Sizínio Hebert

Pedaços da Noite, Movimento, 1999.

 

Cacos

Num saco

o naco

mofo de pão.

No olho a olheira

do que o esvaeceu

Na mão só o palito

do picolé

que outro lambeu.

 

Espia o que há

na caixa de leite

Que antes, fina mistura

servia à fartura

o antecessor.

Encontra em gosma

o azedo gosto de losna.

 

 Encara de cara

a lata vazia

da ervilha

que não degustou

E segue o menino

Essa sua trilha

Neste velho mundo de Deus

Junta cacos sobrantes de vidas

E agrega aos cacos

Dos sonhos seus.          J/R

 

Peço desculpas pela aus~encia e poucas visitas aos amigos. Amanhã minha filha virá de mudança e será minha vizinha. estou ocupada com alguns afazeres de ajuda.

Beijos a todos 



Escrito por Jeanete Ruaro às 13h27
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