Esgueirou-se até o galpão da casa vizinha. Lá tinha ratos. Muitos. Devia ter iscas de veneno também. Procurou. –Cordeiro de Deus tende piedade de mim.-Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo, tende... Encontrou. Da barra franzida do vestido roto fez um saquinho, e encheu com as miraculosas bolinhas. Arrematou com nó e riso. Riu-se das cores variadas. Amarelo, rosa pink, azulão e verde forte. Iguais. Iguaizinhas as cores da última pulseirinha que a mãe tinha lhe dado poucos dias antes de subir ao céu. –Descansará agora para sempre. –dissera a vizinha na ocasião. Queria tanto ter de volta a mãe. Ela sim descobriria o que dava tanto coice dentro da barriga e tanto engodo às refeições. E a mãe se voltasse, nem precisava trabalhar. Podia descansar sempre, ela só queria mesmo a presença.
Meio tijolo colocado na frente da entrada da toca. Ela de tocaia. Espancou o rato com a vassoura de carqueja. Sovou, sovou, até amaciar a carne. Sem pelos. Sem cabeça. Sem rabo. No arroz. O raticida como colorau.Um banquete! -‘Vem almoçar......!
PAI NOSSO QUE ESTAIS NO CÉU... ela não estava no céu, estava na terra. Numa terra fedida repleta de homens com ações fétidas! Não tinha coragem de expressar a palavra pai ao pai, quando chamou para o almoço. Tinha a coragem do ódio. Só. No enterro não segurou a alça do caixão. Segurou o ventre, que amanhecera com fisgadas miúdas que lhe revolviam tudo por dentro e avançavam num crescendo diante dos despojos ao longo do dia. O vestido que já colorira de rosa passava agora para o tom vermelho e grená. Sangue gosmento sobre o catre. O grito de Maria agora estalava pela íris. Grito forte de fêmea parturejante no ato de.
–Força Maria! O bebê está de cócoras! Mais força! MAIS!
O muro. A mão. A lança. A chaga de Cristo. CRISTO!... O sangue! A tesoura rasgando a carne, o talho precedendo o urro de dor. A rosa desfeita antes de florir. O catre num suga-suga sem dar vazão como fosse um absorvente que ela nunca chegou a usar.
-É um menino rijo de mãos fortes, Maria! Mãos fortes Maria! Mãos fortes...
A frase dita distava-se cada vez mais aos ouvidos entorpecidos de Maria até a neblina densa apagar-lhe os olhos de garoa para sempre. O menino herdou do avô-pai o catre, os traços, e as mãos fortes. O nome herdou de um arcanjo: Gabriel.
JR 2006
Escrito por Jeanete Ruaro às 16h23
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|