Foto fonte www.jrcasan.com/impact
Sem
Ele guardava as lágrimas no fundo dos olhos ressequidos. Buscava em partículas de ar o motivo de ser. Ofegava. Amanhecia, era preciso correr, antecipar-se aos outros para catar os resquícios sobrantes de outras mesas. (O lixão é concorrido para os sem.) As pernas continham a pressa da pele solitária e enrugada, último vestígio de que um dia houvera carne sobre os ossos ora semi-retorcidos. A boca escancarava a ausência de dentes, igual ao tamanho da fome. Comida. Só procurava comida, quando a morte destronou-lhe o sonho e o tangeu. Uma folha de jornal do ano anterior trazida pelo vento se acomodou sobre os seus pés. A figura projetava lauta ceia natalina: Peru com castanhas, torta de nozes, sorvetes e vinho. Todos riam. Papai Noel ria na estampa, rostos bem aquinhoados riam, detentores do poder riam...(-se).
Estranhamente não longe dali, uma beija-flor unia-se a magistrados, policiais, e donos de bingos na guarda de uma parede recheada enquanto na toca da boca do defunto ‘sem’, um enxame de moscas, brancas, verdes, azuis e amareladas aguardava ululante pelo início da festa assim que o sol nascesse.
Escrito por Jeanete Ruaro às 10h26
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